CERTAS CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES SOBRE O QUE É UMA NAÇÃO

Um país, do qual este é um exemplo, é "partes sem todo" (diria Caeiro). Os portugueses antes de serem portugueses ou cosmopolitas são eles mesmos, cada um por si próprio a desenrascar-se com os seus problemas que na maioria das vezes não dizem respeito a mais ninguém. Os problemas que dizem respeito a mais do que si próprio são as paixões (o futebol é uma), as heranças, os conflitos (como o haver pouco espaço para estacionar) e algumas coisas práticas que herdamos dos romanos, como as estradas e as taxas para a sua conservação.
O Estado e o respectivo hino nacional, que tanto nos comove (aos outros também) quando alguém ganha uma medalha de nos Jogos Olímpicos, é uma máquina de tornar perversas essas paixões, é uma estrutura para fingir que resolve conflitos (quem é que confia no poder judicial?), é uma forma de enunciar a repressão através de leis e de a garantir através da existência de forças policiais ("os cabrões dos chuis!"), e é, quando há dinheiro, a tal segurança da "reforma" (que tanto agrada a tanta gente), de uma assistência mais barata na saúde (entre as bichas, as listas de espera e a certidão de óbito) e de haver auto-estradas que permitam saír do país mais depressa.
De resto, o Estado é uma forma de tornar as pessoas mais medíocres, pouco práticas e criativas (aquilo a que se chama Ensino, ou seja, a distribuição normalizada e amputada do saber). É também uma teia regulamentada de corrupção, com ajuda dos partidos, das associações secretas e amizades discretas. É, finalmente, quem distribui e redistribui essa ficção chamada dinheiro, controlando as trocas de produtos e incentivando, neste mundo "bolsista", os mais perversos tipos de especulação, ou arte de ganhar dinheiro fácil, que se abate sobre os mais diversos produtos (os leilões, o imobiliário, a arte, e o mercado de capitais que abarca as restantes coisas).
O anarquista que não sou aconselharia a extinção imediata ou gradual do Estado. Se for com revolução é ao mesmo tempo mais degradante, mais injusto, mais libertador e mais emocionante. No entanto, sem esta ficção, sem escândalos, sem a reformazinha, e sem razões para nos queixarmos de uma entidade abstracta, seja ela Portugal, a Europa ou o Mundo, a nossa vida seria mais chata.
Portugal é só um pretexto para haver afinidades entre pessoas que se habituaram a queixar numa estranha língua (o português de Portugal) de pequenas maleitas, em sítios como a Segurança Social ou da mercearia. Certos povos, com cortês hipocrisia ("é o protestantismo, ou o capitalismo"), habituaram-se a não se queixar - "How do you do? Very well, thank you!"
Convém referir também a que a religião se mistura com o Estado e noutros casos se separa dele. A religião é sempre um negócio pessoal ou colectivo: devoção em troca de benefícios que vão da glória de um atleta a vantagens fiscais. A benção das "fitas", os "santinhos" que protegem alguém, os baptizados e outros rituais partem de princípios egoístas. A promiscuidade entre as religiões e os estados é inevitável - o Papa e o Dalai-Lama são exemplos extremamente perversos que envergonhariam os fundadores dessas religiões: Buda, Cristo e as suas doutrinas. Buda, um príncipe, renunciou ao poder desde o início da sua aventura espiritual. Cristo pagava os impostos quando era necessário, mas sempre frisou a sua distância perante o poder político e religioso.
O destino que me leva a vir a ser, mais tarde ou mais cedo, presidente de Portugal, é a convicção de que os assuntos melindrosos do Estado e dos seus ridículos protocolos exigem alguém mais esclarecido quanto ao que se pode fazer por este conjunto de partes que são os Portugueses, e com o fantasma, por um lado, e a máquina, pelo outro, que é "Portugal". Tem faltado um bom ponta-de-lança na Presidência para que este estimado público a que presunçosamente chamamos cidadãos se sinta estimulado a fazer o mesmo na sua vida passional e profissional. Chega de miséria sexual! |
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